Phillip estava sentado na janela do quarto de seu apartamento no décimo terceiro andar de um condomínio de luxo. Estava nu, molhado e sujo, com as pernas pra fora da janela e com vontade de pular. As lembranças de sua vida passavam pela cabeça na fração de um segundo, o abandono da esposa, a doença e morte da filha, perda da moral e a falência financeira. Depois de tudo isso seus amigos e família o abandonaram. Onde estavam aqueles que juraram que o amavam e nos momentos de alegria estavam sempre presente? Não, ninguém estava ai para ajudá-lo, ninguém iria implorar para que ele mudasse de idéia ou tentar segura-lo, sua vida estava destruída e ele sentia impotente para mudar qualquer coisa.
E todo esse inferno que vinha vivendo? Ele não acreditava no sobrenatural, mas as visões que tinha pareciam tão reais, como se ele pudesse tocá-las e senti-las. Não que alucinações eram novidade para ele, depois da morte da filha, passou a usar cocaína varias vezes ao dia, mas as visões eram diferentes, tinham um sentimento distinto e uma sensação de realidade. Por ser muito orgulho nunca procurou ajuda de médicos, mesmo sabendo que talvez a loucura o estivesse consumindo e a qualquer dia não ia mais distinguir o real da fantasia e agora estava pagando por isso.
Ele se olhou nessa situação, o medo e a fadiga neste instante o fez desistir de pular. Imediatamente colocou uma das pernas para dentro do apartamento e uma musica começou a tocar. O horror tomou conta de sua alma novamente, ele olhou para traz e viu o porta-jóias que pertencia sua filha em cima da cama com a bailarina rodando.
“Merda” – disse Phillip.
Um ano antes
Eram umas sete e meia da manhã quando Phillip acordou ouvindo a musica vindo do porta-jóias que ele deu de presente a sua filhinha de nove anos, abriu os olhos, e a viu do lado da sua cama com a caixa na mão.
Catherine amava seu porta-jóias com a bailarina dançando mais que todos seus brinquedos e sempre o matinha por perto. Quando acordava a primeira coisa que fazia era abrir-lo e ver a bailarina dançar.
Phillip se levantou para levá-la ao hospital. Ele não podia imaginar que aquele seria um dos piores dias de sua vida, pois os médicos iriam dar a noticia que não havia mais esperança para Catherine.
Ela tinha uma doença rara que deteriorava as veias corpo e os médicos diziam que ela não alcançaria os quinze anos de idade. Isso era a derrota da vida de Phillip. Ele sempre se esforçou para ajudá-la, fez todos os tratamentos possíveis, gastou quase toda sua fortuna em viagens para outros países, mas nada adiantou. Os médicos disseram que era só uma questão de tempo para que ela morresse.
Depois que os médicos chegaram à conclusão que não havia mais recursos para menina, sua esposa não agüentando a pressão e o sofrimento os abandonou. Deixou uma carta explicando porque se foi. Saiu com a roupa do corpo, levou o dinheiro que mantinham no cofre, que era uma boa quantia, e não voltou mais.
Susan era uma mulher ambiciosa, fria e sem sentimentos que nunca quis ter filhos e somente o fez porque o marido rico que sustentava sua vida de luxo exigiu. Ela nunca imaginou que seria obrigada a passar por tal situação quando aceitou. De certa forma Phillip estava feliz que ela se foi, ele não a suportava mais e sempre discutiam por causa da maneira que ela tratava sua filha.
*****
Alguns meses depois que Susan se foi, Catherine morreu. A partir daí, Phillip começou a morrer também. Afundou-se em drogas e bebidas alcoólicas, andava com prostitutas da pior espécie. Havia semanas que não ia trabalhar, sua empresa estava se afundando e quando viu foi roubado pelo contador que o deixou a empresa falida e com muito pouco dinheiro em sua conta pessoal. Ele não se importou com isso, pois não estava motivado a se reerguer.
“Vou terminar de gastar o resto.” – pensou ele em transe por causa da cocaína.
Chegando em casa depois de uma noitada daquelas Phillip encontrou a caixa de música de Catherine em cima da mesa. A raiva tomou conta da sua alma.
“Aquela empregada idiota, eu ordenei que ela não tocasse nada naquele quarto, amanhã eu mando ela embora” – gritou ele para as paredes, e andou em direção ao quarto.
Quando ele tocou a maçaneta da porta do quarto notou que estava extremamente fria, pensou que poderia ser por causa de uma das saídas do ar condicionado que ficava bem em frente ao quarto e não deu muita importância. A porta estava trancada. Irritado foi até o seu quarto pegar a chave que mantinha na gaveta do criado mudo perto de sua cama.
Voltou e abriu a porta, por alguns instantes ficou parado, criando coragem para entrar. Era a primeira vez que ele abria o quarto depois da morte da filha. Ali estava tudo como ela tinha deixado até a roupa suja não tinha sido tocada. Ficou imaginando o porquê da intrusão da empregada no quarto se nada tinha sido tocado, se fosse de brincadeira era muito cruel.
Ele se sentou na cama e viu a foto da filha, o seu cheiro ainda estava no quarto. Segurando a foto na mão começou a chorar, ele deitou na cama e abraçando a foto sentiu os olhos pesarem e dormiu.
Momentos depois, naquele sono profundo causado pelo álcool, Phillip se revirava, contorcia e gritava. O pesadelo era terrível e de alguma forma sabia que estava dormindo. Ele estava sonhando com a filha, ela estava se afogando e pedindo ajuda ao pai que estava do seu lado, mas por alguma razão ele não a alcançava. Repetidas vezes ele se jogava em direção a ela porém nada adiantava, até que ela afundou e desapareceu.
Agoniado ao ver a filha se afogando e gritando alguma coisa por baixo da água que não podia entender ele acordou banhado em suor, escutou a música do porta-jóias da filha e horrorizado olhou para o chão onde a viu de costas pra ele. Ela estava molhada em sua camisola de dormir observando a bailarina. Phillip podia escutar a voz dela cantando junto da caixa. Apavorado ele gritou.
“O que foi papai?” – disse a menina virando se para ele.
Com temor do que iria ver Phillip correu antes que ela tivesse tempo de virar-se completamente, trancou a porta do quarto dela, foi deitar-se em sua própria cama e começou a rezar.
Pelo resto da noite a ele tentou se convencer que o que ele tinha visto era pura alucinação por causa do álcool, mas o medo era muito e ele não parava de pensar no que tinha visto.
Quando amanheceu saiu de seu quarto, ainda com medo do que vira na madrugada, se arrumou rapidamente e saiu do apartamento. Ele não queria ficar ali e se tivesse opção não voltaria mais.
Dirigiu por algumas horas sem direção certa, não tinha para onde ir e a hipótese de voltar pra casa o dava arrepios. Decidiu ir para a casa de sua mãe, havia tempo que ele não conversava com ela e sentiu saudade de sua infância, onde a vida era mais simples.
Ele estava fazendo um retorno em direção a casa de sua mãe quando o celular tocou, quando atendeu era a sua empregada, ele atendeu pronto para despedi-la.
“Seu Phillip esta tudo bem? Estou aqui na porta que parece estar emperrada, eu destranquei, mas ela não abre. O senhor pode abrir por favor?” disse a mulher.
“Eu não estou em casa e a partir de...” – tentou terminar quando foi interrompido pela empregada.
“Como não? Estou escutando barulho dentro do apartamento, quem esta lá dentro?” – questionou a mulher que a esse ponto estava confusa.
O coração de Phillip disparou e a boca ficou seca. Virando em direção a sua casa novamente disse:
“Chama o zelador e pede pra ele tentar abrir a porta, eu estou indo embora.” – e desligou nem dando tempo da empregada responder.
Chegando em casa encontrou na porta do apartamento, a empregada, o zelador e dois policiais. O zelador explicou que achou melhor chamar a policia desde que ele e a empregada escutaram barulho de porta abrindo e fechando e música.
Phillip ficou paralisado sem saber o que dizer, ele não queria estar neste lugar novamente. Porta abrindo e fechando e música, ele já estava desconfiado do que poderia ser, mas não queria pensar mais nisso.
“Algum problema doutor? Esta parecendo que viu fantasma.” – disse um dos policiais dando uma risadinha cínica.
A primeira reação de Phillip foi tentar a abrir a porta, tocando a maçaneta sentiu o mesmo frio da noite anterior e tirou a mão rapidamente. Ele perguntou ao zelador se a maçaneta estava fria, o zelador respondeu que não.
Por estar em companhia de outras pessoas se sentiu seguro para tentar abrir aporta, o que foi feito com muita facilidade, era como se a porta nunca estivesse trancada. Um dos policiais segurou seu braço.
“É melhor nós entrarmos primeiro, pode ser que tenha alguém ai dentro.”
Os policiais entraram e em dois minutos voltaram, um deles disse:
“Ta tudo em paz podem entrar” – disse abrindo a porta completamente para os outros passarem. “Só que tem um quarto com a porta trancada, abra-o, por favor.”
“Não” – disse Phillip fechando e semblante e com a voz irritada.
“Por quê?” – perguntou o policial curioso.
“Esse quarto era da filha falecida do senhor Phillip” – respondeu a empregada. “Ele não permite a entrada de ninguém lá, não insistam por favor” – completou.
“Vamos embora que temos mais o que fazer” – disse o outro policial.
Os policiais foram embora e junto o zelador. Phillip sentou-se à mesa da sala onde tinha encontrado o porta-jóias da filha na noite anterior. Somente de pensar no assunto já se irritou.
“Engraçado” – disse Phillip olhando com a raiva para a mulher que notou a ironia do patrão. “Você diz aos policiais que eu não permito ninguém naquele quarto e ainda sim você tem coragem de entrar lá e mover um dos objetos que minha filha gostava mais. Se isso se repetir, eu te demito”.
“Do que o senhor ta falando? Desde que Catherine se foi eu nunca mais entrei no quarto. Eu nunca desobedeceria a uma ordem sua patrão.”
“O porta jóias, eu o encontrei na mesa da sala ontem à noite.” – explicou Phillip.
A mulher ficou pálida e paralisada.
“O que foi? Está assustada porque eu descobri? Não se preocupe, eu não vou te demitir agora, como te disse vou te dar uma chance.” – disse ele com ar de vitória.
“Não senhor, só não estou gostando do assunto, ontem quando eu terminei de guardar suas roupas pensei que tinha escutado a música do porta-jóias, foi questão de segundos, então achei que era impressão minha e fui embora. Mas agora...” – dizia quando foi interrompida com um berro de Phillip.
“Não seja estúpida, some da minha casa e não volte mais” – disse ele agarrando-a pelo braço e a levando em direção a porta.
Quando tentou abrir a porta para jogá-la pra fora se surpreendeu vendo que a porta não abria. Forçou um pouco mais e nada. A empregada deu um grito de pavor, quando ele se virou para dar atenção a ela viu sua filha no final do corredor que dava para os quartos.
Catherine estava de pé parada na porta de seu quarto com o porta-jóias que tocava na mão. Phillip a olhou com horror, pois seu rosto não estava mais completo, como se ela estivesse sendo comida. O que restava de sua pele estava roxo e sua roupa maltrapilha.
Gritando de horror a empregada se rastejou até a porta que desta vez abriu com facilidade e desapareceu pelas escadas deixando Phillip sozinho com a menina. Ele estava paralisado, não sabia o que fazer, sua primeira intenção era correr atrás da empregada, mas a porta estava fechada novamente e de certa forma ele sabia que não ia poder abri-la.
Virou-se de novo para Catherine, ela estava chorando desesperadamente e com uma das mãos estendidas em direção a Phillip que por sua vez se ajoelhou e começou a chorar.
“Por quê? Por quê? O que você quer? Me diz o que?” – disse ele gritando com toda sua força.
“Ajuda papai, me ajuda, por favor, eles...” – dizia ela com a voz fraca e tremula quando foi interrompida por uma mão que surgiu por de trás dela e lhe tapou a boca. Era uma mão nojenta, enorme, cinza e com aspecto podre.
A última coisa que Phillip escutou foi o grito intenso e abafado de Catharine, e viu a mão a puxando para trás. Ele tentou correr para ajudá-la, mas ela já tinha desaparecido quando ele chegou ao ponto onde ela estava.
Ele deu um berro de agonia, sentou-se ali e chorou por varias horas, pensando no sofrimento que espírito da filha estaria passando.
A noite chegou, seu corpo deu sinais de fraqueza e ele se lembrou que já não comia a mais de um dia, foi até a geladeira e comeu algo que a empregada havia deixado no dia anterior. Lembrando-se dela pensou ligar no dia seguinte para saber se ela estava bem depois daquele choque.
Decidiu ir dormir, tomou um bom banho e deitou-se. Depois de algum tempo ali, rolando de um lado para o outro, viu que não iria dormir, pois sua cabeça não parava de pensar no que havia acontecido nos últimos dias.
A vontade de usar drogas estava o deixando louco. Ficou ali pensando se deveria sair para consegui-las ou não. Decidiu não ir, pois já estava na hora de parar de se drogar, ele queria fazer isso antes que a droga o deixasse louco de vez.
Colocou a cabeça no travesseiro para dormir e fechou os olhos, a música do porta-jóias começou a tocar bem longe. Assustado olhou para a aonde vinha a música. Catherine estava na porta do apartamento andando em sua direção.
“Olha papai, por favor.” – disse ela chorando.
Phillip não pensou duas vezes e fechou e trancou a porta do quarto. O som daquela música, que de angelical tinha se transformado em infernal para seus ouvidos, vinha aumentando pouco a pouco até que ele percebeu pela altura que escutava ela tinha que estar na porta do seu quarto.
Escutou a porta destrancar, a maçaneta girou lentamente e a porta começou a abrir. O rangido da porta entrou em seu ouvido como uma pancada de tão alto e o volume da música aumentava a cada centímetro que ela abria. Mais uma vez Phillip se viu sem saída, o suor escorria no seu corpo como se estivesse saído do banho e não tivesse se enxugado.
Quando a porta terminou de abrir, ele pôde ver Catherine, que ainda chorava e pedia ajuda com aquela voz melosa que ela conversava com seu pai.
“O que você quer? Por que você esta fazendo isso? Me deixe em paz.” – gritava ele mas uma vez.
“Olha papai, por favor.” – chorava Catherine estendendo as mãos com porta-jóias. “Olha aqui, por favor.”.
No momento de loucura Phillip pegou o porta-jóias e o jogou no chão.
“O que você quer que eu veja?” – gritou ele olhando para onde seria os olhos da menina, mas agora era somente um espaço vazio.
O rosto de Catherine se virou para onde o porta-jóias despedaçou e Phillip fez o mesmo. Ele olhou para o chão espantado, e o choro aumentou.
“O que é isso? O que você fez? Meu Deus me diz alguma coisa, o que é isso? – ele já não estava dentro de si mais.
Catherine segurou sua cabeça e ele foi transportado. Ele se viu entrando no quarto da filha em um dia qualquer, colocando em cima da mesa seu medicamento e um copo com água.
“Aqui esta o remédio filha, tome e vamos que eu já estou atrasado” – Phillip se viu dizendo.
“Ok papai, já vou.” – disse Catherine se levantando e sorrindo para o pai.
O Phillip do passado sai do quarto e o rosto de Catherine muda totalmente, um tom de tristeza toma conta e sua feição e ela muda completamente. Olhando o retrato da mãe e pensando no sofrimento do pai, ela pega todo o medicamento e o esconde no fundo falso do porta-jóias que a este ponto já estava cheio.
Phillip olha no calendário do quarto e vê que foi apenas alguns dias antes dela morrer.
Catherine agarrou o seu braço novamente e ele foi transportado pra outro lugar, novamente ele reconheceu o lugar, estava no inferno. Segundos depois que ele havia chegado lá, dezenas de demônios os cercaram, rasgaram toda sua roupa e até tentaram comer sua carne. Alguns de longe pediam ajuda, sentiam fome, sede, cansaço e qualquer outro sentimento que os faziam sofrer. Aquilo era o inferno, aquelas almas estavam condenadas a sentir o sofrimento mundano por toda eternidade.
Em outro segundo estavam de volta no quarto. Phillip chorou e chorou com sua filha olhando pra ele com seu olhar morto.
“Me ajuda papai, me protege.”
“Como Deus pôde te mandar para aquele lugar, você é só uma criança?” – perguntou ele raivoso.
“Eu teria sobrevivido por muito mais tempo, mas eu me matei parando de tomar os remédios, agora esse é o meu castigo”. Respondeu Catherine desaparecendo enquanto a mesma mão a levava novamente.
Com o corpo todo dolorido e sujo da viagem ao inferno, Phillip se levantou e sentou-se na sua janela.
Epílogo
Escutando a música do porta-jóias que uma vez mais estava inteiro voltou a colocar as pernas pra fora. Ele tinha que pular, se estivesse louco, seria melhor não viver assim, e se todas suas visões fossem reais, ele tinha que fazer alguma coisa para ajudar a filha. Olhou uma vez mais para trás, Catherine estava lá, parada em um canto chorando.
Ela virou seu rosto vazio para Phillip que em fim pulou. Enquanto caia sua vida passou como um filme, e ele não se arrependeu do salto.
Seu corpo atingiu a grade que ficava em cima do muro de proteção do condomínio. Seu corpo nu ficou pendurado como um trapo, sua vida chegara ao fim.
Alguns dias depois Susan foi até o apartamento para ver se encontrava alguma coisa que pudesse levar consigo, e até esperava encontrar pouco mais de dinheiro no cofre.
Ao entrar no apartamento ela não sentiu nada, nem uma emoção, não tinha remorso ou saudades da filha e nem do ex-marido. Deixando a porta do apartamento aberta andou em direção ao quarto que antes dividia com Phillip e notou o porta-jóias em cima da cama tocando a música e a bailarina dançando. Ela deu um sorriso mórbido.
“Eu sabia que o idiota não ia agüentar ficar sem a princesinha dele”. – disse ela com cinismo.
Quando terminou de falar alguma coisa tampou a claridade que vinha da janela. Ela olhou naquela direção e para seu horror ali estavam Phillip e Catherine de mãos dadas. Seus corpos apodrecidos e deformados.
“Bem vinda de volta ao lar querida” – disse Phillip que agora também tinha um sorriso mórbido estampado no seu rosto.
Susan gritou desesperadamente e correu em direção à porta do apartamento, a porta violentamente se fechou e trancou.
Tumulo
Eu sempre ia com a minha mãe ao cemitério, que ficava alguns blocos da minha casa, no dia de finados visitar os nossos parentes e amigos. Em 2007, como todos os anos fomos bem cedo para não pegar o cemitério cheio e claro menos vendedores ambulantes na porta. Minha mãe sempre fez questão de visitar todos parentes daquele cemitério o que às vezes demorava horas. Eu como nunca tenho nada melhor pra fazer sempre a acompanho e me divirto olhando as fotos dos mortos nas lápides e lendo suas mensagens. Até então eu não sabia que esse seria o último ano que eu iria a qualquer tipo de cemitério. Acontece que eu passei por um tumulo velho e mal cuidado, tinha uma rachadura enorme no meio. Eu ri e fiz um comentário de muito mau gosto do tumulo e do coitado que ali estava enterrado.
Fomos embora depois de um tempo, quando eu estava saindo um mendigo me pediu dinheiro, nem respondi fui embora sem falar nada. Eis que o homem me seguiu até a porta do prédio onde moro no sexto andar. Subi pro meu apartamento e fiquei observando o homem pela janela que às vezes me olhava de rabo de olho até que ele desapareceu pela outra esquina. Naquele mesmo dia de noite, eu fui tomar banho quando acreditem ou não, alguém bateu na janela do banheiro (lembre-se que eu moro no sexto andar). Gritei como louco até minha mãe tocar na porta do banheiro, quando ela abriu achou que eu estava morrendo, pois estava pálido e a ponto de desmaiar. Contei tudo pra ela e meu irmão, mas ninguém acreditou. Olhamos pela janela e tudo estava como deveria estar.
Naquele dia pedi pra dormir no quarto do meu irmão, ele zoou com a minha cara mas acabou deixando. Estávamos a ponto de dormir quando na janela apareceu alguém andando do lado de fora, meu irmão viu primeiro e gritou, quando eu olhei era aquele mendigo. Ele gritou comigo e disse pra nunca mais desdenhar da morada dos outros, imediatamente eu me lembrei da minha piada no cemitério. Minha mãe entrou no quarto, desta vez meu irmão era testemunha e ela acreditou. Pegamos a bíblia e oramos por varias horas, nunca mais vi o homem e nunca mais voltei a pisar em um cemitério.
Fomos embora depois de um tempo, quando eu estava saindo um mendigo me pediu dinheiro, nem respondi fui embora sem falar nada. Eis que o homem me seguiu até a porta do prédio onde moro no sexto andar. Subi pro meu apartamento e fiquei observando o homem pela janela que às vezes me olhava de rabo de olho até que ele desapareceu pela outra esquina. Naquele mesmo dia de noite, eu fui tomar banho quando acreditem ou não, alguém bateu na janela do banheiro (lembre-se que eu moro no sexto andar). Gritei como louco até minha mãe tocar na porta do banheiro, quando ela abriu achou que eu estava morrendo, pois estava pálido e a ponto de desmaiar. Contei tudo pra ela e meu irmão, mas ninguém acreditou. Olhamos pela janela e tudo estava como deveria estar.
Naquele dia pedi pra dormir no quarto do meu irmão, ele zoou com a minha cara mas acabou deixando. Estávamos a ponto de dormir quando na janela apareceu alguém andando do lado de fora, meu irmão viu primeiro e gritou, quando eu olhei era aquele mendigo. Ele gritou comigo e disse pra nunca mais desdenhar da morada dos outros, imediatamente eu me lembrei da minha piada no cemitério. Minha mãe entrou no quarto, desta vez meu irmão era testemunha e ela acreditou. Pegamos a bíblia e oramos por varias horas, nunca mais vi o homem e nunca mais voltei a pisar em um cemitério.
O Sonho
Assim que eu cheguei em casa tínhamos a noticia, não era preciso nenhuma palavra ser dita ou nenhum sinal ser feito, todos sabíamos do resultado da ida de Paula ao médico. Ela estava lá, sentada na sua cadeira como de costume, olhando pro céu e pensando na vida, aos prantos, tentando evitar todo o resto do mundo. Minha família inteira estava na sala, ainda com o papel do resultado na mão, sem saber o que dizer para alegrar Paula, e sabendo que não tinha nada a se fazer.
Eu me lembrei de quando éramos crianças e brincávamos de casinha, coisas de crianças, mas era o que mais alegrava ela, ela com suas bonecas, dizendo o nome dos seus filhos o futuro de cada um e o tanto que ela os amava. Era o sonho dela, desde sempre, ter 2 filhos, 2 meninos, Paula via filmes, musicas, lia livros, tudo relacionados a maternidade, e então de repente ao fazer 18 anos ela recebe a noticia que nunca via poder ter filhos, eu não queria imaginar o que se passava na mente dela.
Depois dessa noticia a nossa vida mudou de ponta a cabeça, Paula largou sua faculdade de pedagogia, minha mãe começou a freqüentar um grupo de mulheres a noite todos os dias, talvez para ocupar o tempo, talvez para tentar esquecer que seu sonho de ser avó também já era, sim, eu também não posso ter filhos. E eu, fui o menos afetado, continuei minha faculdade e meu trabalho no supermercado, apenas com uma tristeza alheia compartilhada, sempre que eu chegava em casa e olhava para minha mãe e para minha irmã eu sentia a dor delas, lá no fundo eu conseguia sentir e era a pior dor possível, a dor do fracasso, a dor da incapacidade, a dor de não poder fazer NADA para mudar seu destino, a dor de ver ser sonho indo embora e você não poder fazer absolutamente nada, não se pode lutar contra a natureza, era o que eu pensava, infelizmente minha mãe e irmã pensavam diferente, e é ai que nossa história começa.
Um dia eu estava chegando do trabalho, esperando encontrar minha irmã e mãe com a mesma cara, a mesma dor de sempre, já me preparando para mostrar força, era minha única opção, sempre foi, me mostrar forte. Mas algo estava diferente, tudo estava diferente, minha mãe e minha irmã estavam de preto e haviam mais 5 mulheres com elas, todas estavam sentadas conversando informalmente ao redor de uma mesa, dizendo coisas que eu não ligava, termos de um acordo que eu não entendia, então não me importei e fui pro meu quarto, depois de um dia exausto. Mas não conseguia parar de pensar naquela cena, e possibilidades vieram a minha mente, perguntas vieram a minha mente. Quem eram aquelas mulheres? Por que o clima de tristeza e depressão não estavam mais dentro da minha irmã e da minha mãe? Por que todas de preto? Eu realmente não tinha a mínima noção do que estava acontecendo, então fui para a sala de novo.
Ao chegar lá eu vi minha irmã só de calcinha deitada na mesa e as 5 mulheres e minha mãe estavam em um circulo, com livros estranhos cantando uma musica estranha, foi ai que eu percebi que aquilo não era normal. Fui correndo gritar com minha mãe e perguntar o que estava acontecendo, mas minha voz não saia, e então ao me aproximar demais uma das mulheres me deu um olhar paralisante e eu cai no chão sem voz e sem sentidos, sem explicação, o que era isso? Apesar de tudo eu conseguia ver tudo naquela sala, e então minha irmã colocou a mão na barriga e começou a gritar, gemer, se contorcer, eu não sabia o que estava acontecendo, mas não podia ficar ali caído e deixar essas mulheres fazerem isso com minha irmã. Eu tentava gritar, levantar, e nada, aquela mulher continuava me petrificando com seu olhar, e eu sentia a dor da minha irmã novamente, nós éramos gêmeos, sempre fomos muito ligados um ao outro e só de ver suas expressões faciais conseguia saber exatamente o que ela sentida, e seu sentimento era de dor, pura dor. Eu tentava me levantar, fazer algo, mas nada, nada podia ser feito.
Então eu desmaiei, minhas forças acabaram e eu acordei no meu quarto como se tudo não passasse de um sonho. Levantei assustado e fui em direção ao quarto da minha mãe, da minha irmã, da sala, e nada, ninguém estava lá, nem minha família nem as assustadoras mulheres de preto, então de repente eu vejo minha mãe e minha irmã entrando em casa cheia de sacolas, rindo felizes, como se nada tivesse acontecido.
No mesmo instante eu corri em direção a minha irmã e dei um forte abraço nela, e em seguida comecei a gritar com minha mãe, pedindo explicações. Foi então que ela abriu o jogo:
-Filho, as reuniões que eu ia a noite não era um simples encontro de mulheres, aquilo é uma sociedade secreta que existe a muitos e muitos anos, onde mulheres se encontram para praticar bruxaria. Eu sei que você não vai concordar com o isso, mas foi tudo para o bem da nossa família, do nosso nome, nosso nome não pode morrer aqui, então fizemos um acordo. Elas colocariam dois meninos na barriga de Paula e quando eles nascessem um seria enviado para as mulheres, e outro ficaria com agente.
Ao ouvir isso, minha vontade era de quebrar tudo naquela casa, minha indignação era imensa, e eu não sabia o que falar ao certo, só sabia que eu me senti injustiçado:
-Como vocês duas me deixam de fora de algo assim? Vocês são loucas de mexerem com essas coisas, isso não é brinquedo! Como fazem isso sem me consultar?
-Nós sabíamos que você não ia concordar meu irmão, mas era isso que eu queria pra mim, esse é meu propósito de vida, e se não fosse essa chama de esperança acesa eu já teria me matado a muito tempo.
Essas palavras de Paula me chocaram, então elas me entregaram um exame de sangue confirmando que ela estava grávida, mesmo com toda a felicidade delas eu não acreditava que elas apelaram para magia negra, eu nunca soube como isso funcionava, só sabia que isso não acabaria bem. Depois disso eu fui para meu quarto, me preparei e fui trabalhar como se nada tivesse acontecido.
Mesmo com a felicidade das duas eu não podia aceitar aquilo, minha mãe mexendo com bruxas, minha irmã com algo dentro da barriga dela que não foi gerado de forma humana, aquilo não me deixou em paz. E durante toda a gestação eu me mantive frio, triste e decepcionado com as duas. A felicidade das duas aumentava junto com a barriga de Paula e cada dia elas estavam mais felizes, e quando estávamos próximos aos 6 meses descobrimos que eram gêmeos, eram 2 meninos, assim como ela sonhava, assim como as bruxas disseram.
Mas então as coisas começaram a dar errado, Paula vomitava muito, não comia direito, e foi emagrecendo, os bebês estavam consumindo ela, e toda sua energia, e mesmo feliz ela estava pálida, estava acabada, aquilo não estava certo, aquilo não era normal.
Então aos 8 meses eu descobri onde era essa reunião e fui até lá para conversar com as bruxas e ver como salvar minha irmã daquilo tudo. Quando cheguei lá tudo estava vazio e parecia um galpão abandonado, confirmei varias vezes se aquele era o endereço certo, e sim era lá. Comecei a investigar as paredes, o chão, e procurar por algo a mais, quando achei um alçapão debaixo de um tapete, abri e desci. Lá era como uma caverna de bruxaria, caveiras e velas em todo lugar e uma mesa no meio toda velha, tudo escuro, e então havia duas mulheres conversando, eu me escondi e ouvi as conversa.
-Está quase na hora, nosso filho está chegando, em breve vai nascer 2 meninos, um anjo e um demônio saíram da barriga daquela jovem. Precisaremos estar presentes na hora do nascimento, pois segundo a maldição só um poderá viver, e então mataremos o anjo e levaremos o demônio para casa.
Quando ouvi isso, não podia acreditar que se referia a Paula, mas continuei escutando.
-A jovem e sua mãe foram enviadas para nossa fazenda e lá faremos o ritual, mataremos o anjo assim que ele nascer, eles são muito diferentes fisicamente um vai sair totalmente feio, com cicatrizes e marcas de mordida no corpo, o outro será lindo como um anjo cabelos loiros e olhos claros, não será difícil distingui-los.
Elas então saíram, e eu fui correndo para casa impedir Paula de ir para essa fazenda, mas quando cheguei em casa elas já tinha ido e deixado um bilhete, dizendo onde era a fazenda e dizendo que eu não podia ir pois era um encontro de mulheres. Pesquisei o endereço da fazenda na hora e fui correndo para lá.
No caminho minha mente parecia explodir e eu estava totalmente atormentado com a idéia de tudo que estava acontecendo, mas ai encontrei uma camionete vermelha igual a da minha mãe parada fora da pista, e vários gritos.
Chegando lá encontrei Paula, deitada na carroceria gritando muito e dizendo:
-Meu deus, que bom que você está aqui, as mulheres são todas loucas, tentaram me prender e vieram com facas pra cima de mim, iam abrir minha barriga e tirar meus filhos, então eu e minha mãe conseguimos fugir, estávamos indo embora mas elas nos acharam, eu me escondi aqui mas elas levaram minha mãe. Agora os bebês estão nascendo e eu não sei o que fazer.
Eu estava em pânico mas sabia o que tinha que fazer, tinha que fazer o parto da minha irmã. Foi uma das coisas mais difíceis e tensas da minha vida, mas era preciso, então comecei a tira-los de lá e então consegui ver o rosto dos dois, assim como as velhas disseram, um parecia um monstro, todo machucado, vermelho de aranhões, mordidas, era o bebê mais feio que eu já vi, e o outro era totalmente diferente, olhos claros, cabelos loiros, parecia um anjo.
Os dois abriram os olhos e me olharam lá no fundo como se soubessem o que estava por vir, minha irmã estava desmaiada e só eu estava lá, com os dois e tendo que tomar a decisão de matar um, eles me olhavam sem nem piscar, sabendo o que estava por vir, então eu tirei meu canivete e sem pensar muito rasguei a garganta do bebê defeituoso, ele não soltou uma lagrima, nem chorou, simplesmente fechou os olhos e morreu. O outro começou a chorar histericamente e parece que todo o medo que eu sentia tinha ido embora, o bebe fechou os olhos e começou a chorar e eu me senti mais tranqüilo.
Depois disso eu sabia que tinha tomado a decisão certa, salvei o anjo e matei o demônio, então diriji até a cidade com minha irmã e nos mudamos, fomos pra uma fazenda e nos refugiamos ali, eu menti a ela, dizendo que um bebe nasceu morto, e ela acreditou devido as complicações do parto.
O menino me assustava as vezes, ele me encarava muito tempo, quase nunca ria ou brincava, estava sempre quieto na dele, mas pensei que fosse coisa da idade. Então no dia que ele completou 6 anos veio um homem velho a nossa casa e pediu para conversar comigo.
Ele contou uma história de 2 irmãos que tinham que se enfrentar por toda a eternidade, eles foram amaldiçoados e ficavam nascendo juntos por anos, mas apenas um podia sobreviver, e ele me disse com essas palavras:
-Desde Caim e Abel, muitas pessoas têm que escolher qual desses dois devem viver, mas a maioria toma a decisão errada. Elas se baseiam na beleza, e não no olhar dos bebês.
Nessa hora a criança entrou na sala e me olhou fixamente nos olhos, depois ele se transformou em um monstro, assim como o bebê que eu tinha matado, ele ficou com mordidas, aranhões, todo enrugado e vermelho, os olhos totalmente vermelhos continuavam me olhando e ele disse:
-Você tomou a decisão errada. Você só tinha que olhar no fundo dos meus olhos, e ver o quanto de sangue ele tinha, o sangue de todos que eu já matei.
E com deu um leve sorriso e depois me atacou, cortando minha garganta do jeito que eu cortei a do seu irmão.
Então eu acordei.
Eu me lembrei de quando éramos crianças e brincávamos de casinha, coisas de crianças, mas era o que mais alegrava ela, ela com suas bonecas, dizendo o nome dos seus filhos o futuro de cada um e o tanto que ela os amava. Era o sonho dela, desde sempre, ter 2 filhos, 2 meninos, Paula via filmes, musicas, lia livros, tudo relacionados a maternidade, e então de repente ao fazer 18 anos ela recebe a noticia que nunca via poder ter filhos, eu não queria imaginar o que se passava na mente dela.
Depois dessa noticia a nossa vida mudou de ponta a cabeça, Paula largou sua faculdade de pedagogia, minha mãe começou a freqüentar um grupo de mulheres a noite todos os dias, talvez para ocupar o tempo, talvez para tentar esquecer que seu sonho de ser avó também já era, sim, eu também não posso ter filhos. E eu, fui o menos afetado, continuei minha faculdade e meu trabalho no supermercado, apenas com uma tristeza alheia compartilhada, sempre que eu chegava em casa e olhava para minha mãe e para minha irmã eu sentia a dor delas, lá no fundo eu conseguia sentir e era a pior dor possível, a dor do fracasso, a dor da incapacidade, a dor de não poder fazer NADA para mudar seu destino, a dor de ver ser sonho indo embora e você não poder fazer absolutamente nada, não se pode lutar contra a natureza, era o que eu pensava, infelizmente minha mãe e irmã pensavam diferente, e é ai que nossa história começa.
Um dia eu estava chegando do trabalho, esperando encontrar minha irmã e mãe com a mesma cara, a mesma dor de sempre, já me preparando para mostrar força, era minha única opção, sempre foi, me mostrar forte. Mas algo estava diferente, tudo estava diferente, minha mãe e minha irmã estavam de preto e haviam mais 5 mulheres com elas, todas estavam sentadas conversando informalmente ao redor de uma mesa, dizendo coisas que eu não ligava, termos de um acordo que eu não entendia, então não me importei e fui pro meu quarto, depois de um dia exausto. Mas não conseguia parar de pensar naquela cena, e possibilidades vieram a minha mente, perguntas vieram a minha mente. Quem eram aquelas mulheres? Por que o clima de tristeza e depressão não estavam mais dentro da minha irmã e da minha mãe? Por que todas de preto? Eu realmente não tinha a mínima noção do que estava acontecendo, então fui para a sala de novo.
Ao chegar lá eu vi minha irmã só de calcinha deitada na mesa e as 5 mulheres e minha mãe estavam em um circulo, com livros estranhos cantando uma musica estranha, foi ai que eu percebi que aquilo não era normal. Fui correndo gritar com minha mãe e perguntar o que estava acontecendo, mas minha voz não saia, e então ao me aproximar demais uma das mulheres me deu um olhar paralisante e eu cai no chão sem voz e sem sentidos, sem explicação, o que era isso? Apesar de tudo eu conseguia ver tudo naquela sala, e então minha irmã colocou a mão na barriga e começou a gritar, gemer, se contorcer, eu não sabia o que estava acontecendo, mas não podia ficar ali caído e deixar essas mulheres fazerem isso com minha irmã. Eu tentava gritar, levantar, e nada, aquela mulher continuava me petrificando com seu olhar, e eu sentia a dor da minha irmã novamente, nós éramos gêmeos, sempre fomos muito ligados um ao outro e só de ver suas expressões faciais conseguia saber exatamente o que ela sentida, e seu sentimento era de dor, pura dor. Eu tentava me levantar, fazer algo, mas nada, nada podia ser feito.
Então eu desmaiei, minhas forças acabaram e eu acordei no meu quarto como se tudo não passasse de um sonho. Levantei assustado e fui em direção ao quarto da minha mãe, da minha irmã, da sala, e nada, ninguém estava lá, nem minha família nem as assustadoras mulheres de preto, então de repente eu vejo minha mãe e minha irmã entrando em casa cheia de sacolas, rindo felizes, como se nada tivesse acontecido.
No mesmo instante eu corri em direção a minha irmã e dei um forte abraço nela, e em seguida comecei a gritar com minha mãe, pedindo explicações. Foi então que ela abriu o jogo:
-Filho, as reuniões que eu ia a noite não era um simples encontro de mulheres, aquilo é uma sociedade secreta que existe a muitos e muitos anos, onde mulheres se encontram para praticar bruxaria. Eu sei que você não vai concordar com o isso, mas foi tudo para o bem da nossa família, do nosso nome, nosso nome não pode morrer aqui, então fizemos um acordo. Elas colocariam dois meninos na barriga de Paula e quando eles nascessem um seria enviado para as mulheres, e outro ficaria com agente.
Ao ouvir isso, minha vontade era de quebrar tudo naquela casa, minha indignação era imensa, e eu não sabia o que falar ao certo, só sabia que eu me senti injustiçado:
-Como vocês duas me deixam de fora de algo assim? Vocês são loucas de mexerem com essas coisas, isso não é brinquedo! Como fazem isso sem me consultar?
-Nós sabíamos que você não ia concordar meu irmão, mas era isso que eu queria pra mim, esse é meu propósito de vida, e se não fosse essa chama de esperança acesa eu já teria me matado a muito tempo.
Essas palavras de Paula me chocaram, então elas me entregaram um exame de sangue confirmando que ela estava grávida, mesmo com toda a felicidade delas eu não acreditava que elas apelaram para magia negra, eu nunca soube como isso funcionava, só sabia que isso não acabaria bem. Depois disso eu fui para meu quarto, me preparei e fui trabalhar como se nada tivesse acontecido.
Mesmo com a felicidade das duas eu não podia aceitar aquilo, minha mãe mexendo com bruxas, minha irmã com algo dentro da barriga dela que não foi gerado de forma humana, aquilo não me deixou em paz. E durante toda a gestação eu me mantive frio, triste e decepcionado com as duas. A felicidade das duas aumentava junto com a barriga de Paula e cada dia elas estavam mais felizes, e quando estávamos próximos aos 6 meses descobrimos que eram gêmeos, eram 2 meninos, assim como ela sonhava, assim como as bruxas disseram.
Mas então as coisas começaram a dar errado, Paula vomitava muito, não comia direito, e foi emagrecendo, os bebês estavam consumindo ela, e toda sua energia, e mesmo feliz ela estava pálida, estava acabada, aquilo não estava certo, aquilo não era normal.
Então aos 8 meses eu descobri onde era essa reunião e fui até lá para conversar com as bruxas e ver como salvar minha irmã daquilo tudo. Quando cheguei lá tudo estava vazio e parecia um galpão abandonado, confirmei varias vezes se aquele era o endereço certo, e sim era lá. Comecei a investigar as paredes, o chão, e procurar por algo a mais, quando achei um alçapão debaixo de um tapete, abri e desci. Lá era como uma caverna de bruxaria, caveiras e velas em todo lugar e uma mesa no meio toda velha, tudo escuro, e então havia duas mulheres conversando, eu me escondi e ouvi as conversa.
-Está quase na hora, nosso filho está chegando, em breve vai nascer 2 meninos, um anjo e um demônio saíram da barriga daquela jovem. Precisaremos estar presentes na hora do nascimento, pois segundo a maldição só um poderá viver, e então mataremos o anjo e levaremos o demônio para casa.
Quando ouvi isso, não podia acreditar que se referia a Paula, mas continuei escutando.
-A jovem e sua mãe foram enviadas para nossa fazenda e lá faremos o ritual, mataremos o anjo assim que ele nascer, eles são muito diferentes fisicamente um vai sair totalmente feio, com cicatrizes e marcas de mordida no corpo, o outro será lindo como um anjo cabelos loiros e olhos claros, não será difícil distingui-los.
Elas então saíram, e eu fui correndo para casa impedir Paula de ir para essa fazenda, mas quando cheguei em casa elas já tinha ido e deixado um bilhete, dizendo onde era a fazenda e dizendo que eu não podia ir pois era um encontro de mulheres. Pesquisei o endereço da fazenda na hora e fui correndo para lá.
No caminho minha mente parecia explodir e eu estava totalmente atormentado com a idéia de tudo que estava acontecendo, mas ai encontrei uma camionete vermelha igual a da minha mãe parada fora da pista, e vários gritos.
Chegando lá encontrei Paula, deitada na carroceria gritando muito e dizendo:
-Meu deus, que bom que você está aqui, as mulheres são todas loucas, tentaram me prender e vieram com facas pra cima de mim, iam abrir minha barriga e tirar meus filhos, então eu e minha mãe conseguimos fugir, estávamos indo embora mas elas nos acharam, eu me escondi aqui mas elas levaram minha mãe. Agora os bebês estão nascendo e eu não sei o que fazer.
Eu estava em pânico mas sabia o que tinha que fazer, tinha que fazer o parto da minha irmã. Foi uma das coisas mais difíceis e tensas da minha vida, mas era preciso, então comecei a tira-los de lá e então consegui ver o rosto dos dois, assim como as velhas disseram, um parecia um monstro, todo machucado, vermelho de aranhões, mordidas, era o bebê mais feio que eu já vi, e o outro era totalmente diferente, olhos claros, cabelos loiros, parecia um anjo.
Os dois abriram os olhos e me olharam lá no fundo como se soubessem o que estava por vir, minha irmã estava desmaiada e só eu estava lá, com os dois e tendo que tomar a decisão de matar um, eles me olhavam sem nem piscar, sabendo o que estava por vir, então eu tirei meu canivete e sem pensar muito rasguei a garganta do bebê defeituoso, ele não soltou uma lagrima, nem chorou, simplesmente fechou os olhos e morreu. O outro começou a chorar histericamente e parece que todo o medo que eu sentia tinha ido embora, o bebe fechou os olhos e começou a chorar e eu me senti mais tranqüilo.
Depois disso eu sabia que tinha tomado a decisão certa, salvei o anjo e matei o demônio, então diriji até a cidade com minha irmã e nos mudamos, fomos pra uma fazenda e nos refugiamos ali, eu menti a ela, dizendo que um bebe nasceu morto, e ela acreditou devido as complicações do parto.
O menino me assustava as vezes, ele me encarava muito tempo, quase nunca ria ou brincava, estava sempre quieto na dele, mas pensei que fosse coisa da idade. Então no dia que ele completou 6 anos veio um homem velho a nossa casa e pediu para conversar comigo.
Ele contou uma história de 2 irmãos que tinham que se enfrentar por toda a eternidade, eles foram amaldiçoados e ficavam nascendo juntos por anos, mas apenas um podia sobreviver, e ele me disse com essas palavras:
-Desde Caim e Abel, muitas pessoas têm que escolher qual desses dois devem viver, mas a maioria toma a decisão errada. Elas se baseiam na beleza, e não no olhar dos bebês.
Nessa hora a criança entrou na sala e me olhou fixamente nos olhos, depois ele se transformou em um monstro, assim como o bebê que eu tinha matado, ele ficou com mordidas, aranhões, todo enrugado e vermelho, os olhos totalmente vermelhos continuavam me olhando e ele disse:
-Você tomou a decisão errada. Você só tinha que olhar no fundo dos meus olhos, e ver o quanto de sangue ele tinha, o sangue de todos que eu já matei.
E com deu um leve sorriso e depois me atacou, cortando minha garganta do jeito que eu cortei a do seu irmão.
Então eu acordei.
A Casa
Eram duas e meia da manhã quando Levi, Antônio e Arnaldo andavam pelas calçadas sujas de sua cidade. Estavam vagando a mais três horas sem nada pra fazer, Levi odiava fazer isso, preferia estar em casa assistindo TV e comendo, mas sempre acompanhava os amigos porque não gostava de ficar sozinho. Chegaram à antiga estação de trem da cidade que já desativada havia muitos anos.
“Vamos embora daqui, eu odeio esse lugar” – pediu Levi tentando não parecer aterrorizado.
“Deixe de ser medroso” – respondeu Arnaldo. “Vamos até a casa abandona da colina e dar uma olhada, estou precisando de uma aventura.” – completou ele com a voz excitada.
Antônio riu e começou a andar em direção a casa, os outros dois o seguiram. Chegaram ao portão de entrada e olharam aquela imensa construção, era linda e tenebrosa ao mesmo tempo.
Os três jamais viram alguém morando naquele lugar, o dono da propriedade a trancou a mais de cinqüenta anos e não voltou mais, nunca vendeu ou alugou. Os moradores da região até evitavam passar perto com medo, diziam que o lugar era assombrado.
Anos atrás o filho do prefeito daquela cidade estava se casando com uma moça que morava ali. No dia do casamento, a melhor amiga da noiva a levou para a casa do prefeito dizendo que queria mostrar-lhe algo. Chegando lá elas sobem até o quarto onde o noivo dormia e o encontram na cama com outra mulher. Em um momento de desespero a noiva desce até a cozinha pega uma faca e mata o noivo e a amante. Momentos depois, ela não conteve a agonia e enfiou a faca em seu coração. Supostamente os fantasmas dos três ficaram na casa onde diz à lenda que o fantasma da noiva tortura os outros dois.
Arnaldo foi o primeiro a entrar, pulou o portão e foi em direção a casa. Olhou para trás e viu os outros dois pulando também e continuou até chegar à porta. Levi ficou parado no meio do caminho.
“Eu não entro ai, estou sentindo mal, alguma coisa me diz que agente deveria ir embora.” – disse o rapaz com voz tremula.
Os outros dois não deram importância. Voltaram-se para casa e olharam pela janela. Eles se espantaram porque podiam ver muito bem o que tinha dentro da casa somente com a iluminação da lua que entrava pelas janelas. A sala de entrada era enorme e toda a mobília parecia estar lá, porem coberta com lençóis.
“Opa, a porta da frente esta aberta.” – Disse Antônio já abrindo a porta.
Os dois entraram, o lugar era lindo, descobriram alguns móveis e viram que estava tudo intacto, parecia que alguém estava cuidando de tudo. Antônio decidiu subir para o próximo andar e ver se achava algo interessante. Arnaldo foi ver outro cômodo. Momentos depois Arnaldo escuta Antônio descendo as escadas.
“Vamos embora, Levi esta nos esperando lá fora.” – Gritou Arnaldo para que seu amigo pudesse escutá-lo.
Antônio não respondeu, Arnaldo se virou para ir até a saída e deu de cara com alguém, não pode ver quem era porque a luz vinha de trás da pessoa então só via a silhueta. Uma coisa ele tinha certeza, estava vestida de noiva. Seu corpo congelou então ele riu tentando disfarçando o susto.
“Muito boa essa Antônio, quase me mata de susto. Vamos embora, já tive muito pra uma noite, esse lugar esta me dando arrepios.” – disse Arnaldo irritado.
Antônio continuou calado. Arnaldo ficou inquieto olhando o suposto amigo e começou a andar em sua direção, a silhueta também se movia ao seu encontro. Algo mudou na visão de Arnaldo, parecia que a silhueta puxou uma faca de lado e ele começou a ficar preocupado e parou de andar.
“Brincadeira tem limite Antônio.” – gritou ele.
A silhueta também parou de andar, a luz da lua iluminou seu rosto e Arnaldo gritou. A imagem o aterrorizou e ele se arrependeu de ter entrado na casa. Ali na sua frente estava o fantasma da noiva, seu rosto podre e olhos vazios não expressavam sentimento e mesmo assim ele sentiu que ela o ia matar.
“Antônio!” – foi a única coisa que ele conseguiu gritar, pois o terror o mantinha congelado e sem ar.
Antônio desceu as escadas rapidamente, quando viu a cena correu direto pra porta gritando. A porta estava trancada, ele a esmurrava, chutava e puxava, mas ela não abria. Levi estava bem perto, mas parecia que não via ou escutava nada. A noiva não deu muita atenção a ele e continuava a encarar Arnaldo que por sua vez correu para ajudar o amigo com a porta.
“Você pensou que iria escapar de mim por toda eternidade querido?” – disse o fantasma se aproximando dos dois.
A noiva agarrou Arnaldo pelo cabelo e apunhalou no coração. O rapaz ficou agonizando por um tempo enquanto Antônio fazia sua última oração.
“Some daqui você não tem nada a ver com esse traste.” – disse a noiva enquanto abria a porta.
“Não, por favor Antônio” – gritou Arnaldo.
Antônio se espantou ao ver o espírito de Arnaldo sendo segurado pela noiva. Escutou um barulho do outro lado da sala e viu o fantasma de outra mulher que parecia estar sofrendo muito. Lembrou-se da lenda daquela casa e então entendeu que seu amigo era a reencarnação o noivo que de alguma maneira teria escapado da tortura eterna.
Ele correu e levou Levi embora com ele. Contou a história a todos mais ninguém acreditou. O corpo de Arnaldo nunca foi encontrado pela policia que vasculhou toda a casa e os arredores. Antônio foi internado em um hospício alguns meses depois, dizia estar sendo assombrado pelos três fantasmas. E quanto a casa, continua lá, sozinha e sombria, talvez esperando sua visita...
Desculpa
Pessoal,por favor me desculpem por para de postar as historias sinto muito mesmo vou postar agora(andei fazendo umas novas).
Igreja
Alguns anos atrás quando eu tinha 18 anos, me mudei para salvador com a minha família, pois meu pai havia sido transferido pela empresa onde trabalhava. Alguns dias depois voltando do colégio eu vi um cartaz na porta da igreja dizendo que precisavam de zelador e decidi me candidatar à vaga. Depois de conversar com o padre ele decidiu me dar uma chance e eu comecei no mesmo dia, meu turno seria das três da tarde até as nove da noite, a igreja fechava as sete então eu tinha duas horas para limpar o chão e os assentos.
No meu segundo dia coisas estranhas começaram a acontecer e eu fiquei muito assustado. Eram umas oito da noite e o padre havia ido jantar na casa de um amigo, eu fiquei sozinho na igreja terminando a limpeza. Eu fui até o armazém da igreja buscar alguns produtos e quando voltei para minha surpresa havia uma mulher vestida de luto ajoelhada em um dos assentos e estava chorando. A principio eu pensei que tinha deixado a porta aberta então fui me aproximando para falar com ela.
“Desculpe senhora mas a igreja já esta fechada, a senhora pode voltar amanhã as sete da manhã que ela já vai estar aberta.” – disse eu à mulher que continuou com a cabeça baixa e chorando.
Vendo o estado da mulher eu a deixei ficar por ali e quando eu fosse embora eu pediria que ela saísse comigo. Continuei limpando e acabei esquecendo a mulher até que escutei passos na igreja, quando eu olhei para a direção de onde vinha eu não vi nada e a mulher já não estava lá. Eu corri para a parte de atrás da igreja, onde tinha escutado os passos, por que pensei que ela tinha ido pra lá. Quando eu cheguei não tinha ninguém, então voltei ao saguão de missas chequei todas as portas da igreja e todas estavam trancadas.
“Onde esta meu filho?” – escutei uma voz vinda do altar.
Eu olhei e não tinha ninguém, só vi um vulto andando e desaparecendo. Com medo, eu saí correndo da igreja e acabei topando com o padre na porta. Ele estava muito abatido, perguntei o que era, ele me falou que sua mãe tinha falecido momentos atrás e ele veio se preparar para viajar para cidade onde ela morava. Ele entrou na igreja e eu fui atrás para ajudá-lo. A mulher estava outra vez ajoelhada no banco, quando passamos por ela o padre a ignorou totalmente e ela me olhou tirando o véu negro que cobria seu rosto. O terror tomou conta de mim, a mulher estava pálida e chorava muito. Eu decidi não dizer nada para o padre com medo que ele pensasse que eu estava fazendo uma brincadeira de mau gosto. Eu fiquei apavorado, queria sair da igreja mas não queria deixar o padre sozinho. Ele começou a fazer a mala e tirou uma foto da cômoda e me mostrou, meu sangue gelou novamente, a mulher na foto era a mesma que chorava na igreja.
“Esta era a minha mãe, eu tirei a foto quando me transferiram para esta cidade, ela sempre pedia para que eu fosse visitá-la, mas como eu sempre estava ocupado aqui nunca fui. Agora ela faleceu e eu nunca mais vou vê-la.” Disse o padre com a voz tremula.
O padre foi para o enterro da mãe, por dois dias trabalhei somente de dia enquanto a igreja estava aberta, e quando o padre finalmente regressou, eu pedi demissão. Igreja agora eu só vou aos domingos, mas ainda morro de medo, vai ver que a mãe do padre ainda o está vigiando do além.
No meu segundo dia coisas estranhas começaram a acontecer e eu fiquei muito assustado. Eram umas oito da noite e o padre havia ido jantar na casa de um amigo, eu fiquei sozinho na igreja terminando a limpeza. Eu fui até o armazém da igreja buscar alguns produtos e quando voltei para minha surpresa havia uma mulher vestida de luto ajoelhada em um dos assentos e estava chorando. A principio eu pensei que tinha deixado a porta aberta então fui me aproximando para falar com ela.
“Desculpe senhora mas a igreja já esta fechada, a senhora pode voltar amanhã as sete da manhã que ela já vai estar aberta.” – disse eu à mulher que continuou com a cabeça baixa e chorando.
Vendo o estado da mulher eu a deixei ficar por ali e quando eu fosse embora eu pediria que ela saísse comigo. Continuei limpando e acabei esquecendo a mulher até que escutei passos na igreja, quando eu olhei para a direção de onde vinha eu não vi nada e a mulher já não estava lá. Eu corri para a parte de atrás da igreja, onde tinha escutado os passos, por que pensei que ela tinha ido pra lá. Quando eu cheguei não tinha ninguém, então voltei ao saguão de missas chequei todas as portas da igreja e todas estavam trancadas.
“Onde esta meu filho?” – escutei uma voz vinda do altar.
Eu olhei e não tinha ninguém, só vi um vulto andando e desaparecendo. Com medo, eu saí correndo da igreja e acabei topando com o padre na porta. Ele estava muito abatido, perguntei o que era, ele me falou que sua mãe tinha falecido momentos atrás e ele veio se preparar para viajar para cidade onde ela morava. Ele entrou na igreja e eu fui atrás para ajudá-lo. A mulher estava outra vez ajoelhada no banco, quando passamos por ela o padre a ignorou totalmente e ela me olhou tirando o véu negro que cobria seu rosto. O terror tomou conta de mim, a mulher estava pálida e chorava muito. Eu decidi não dizer nada para o padre com medo que ele pensasse que eu estava fazendo uma brincadeira de mau gosto. Eu fiquei apavorado, queria sair da igreja mas não queria deixar o padre sozinho. Ele começou a fazer a mala e tirou uma foto da cômoda e me mostrou, meu sangue gelou novamente, a mulher na foto era a mesma que chorava na igreja.
“Esta era a minha mãe, eu tirei a foto quando me transferiram para esta cidade, ela sempre pedia para que eu fosse visitá-la, mas como eu sempre estava ocupado aqui nunca fui. Agora ela faleceu e eu nunca mais vou vê-la.” Disse o padre com a voz tremula.
O padre foi para o enterro da mãe, por dois dias trabalhei somente de dia enquanto a igreja estava aberta, e quando o padre finalmente regressou, eu pedi demissão. Igreja agora eu só vou aos domingos, mas ainda morro de medo, vai ver que a mãe do padre ainda o está vigiando do além.
Insônia
Não deveria escrever, mas talvez, assim consiga descansar. Nunca senti tanto medo como agora. Talvez ninguém chegue a ler, e como qualquer outro papel, isso vá para o lixo. Não espero a piedade nem a pena de quem estiver lendo. Apenas esclareço o que aconteceu aqui, pois eu não ficarei para explicar. Não se pode mudar o que está feito, os motivos só interessam a mim, apesar de não sabê-los ao certo. Portanto, explicarei somente os fatos e não explicarei os porquês. A garota que encontrará no sótão é minha filha, espero que tenha o cuidado de arrancar o arame de seu pescoço antes de desamarrá-la da cadeira. Certamente, você irá concordar comigo que ela é muito bonita. A garota é muito parecida com a mãe, falecida há três anos. Para comprovar, deixei o retrato da minha querida Lucia, no colo da menina. Michele tinha dois 12 anos quando minha esposa foi atropelada. Era nossa única filha. Depois do choque da morte, veio o período de superação, o qual atravessamos muito bem, confiávamos muito um no outro. O seu primeiro aniversário sem a mãe foi o pior momento depois da tragédia. Encomendamos uma missa para Lúcia e choramos o dia inteiro. Não quis mais saber de outra mulher, nunca me acostumei com sua morte. Ah! Como queria ter morrido junto com ela, não teria que encarar todo este inferno! Começou uma semana depois do dia do aniversário da minha filha. Havia acabado de voltar do trabalho, minha casa estava toda apagada como de costume. Sentei-me na poltrona sem acender as luzes e acendi um cigarro. Liguei o rádio e, na estação, tocava a nossa música. A música que eu e Lúcia escutávamos! Falava de temas medíocres, como um amor não correspondido e traição. Mas a melodia era tão doce! Comecei então, a sentir o cheiro de sua pele, o toque de suas mãos; escutava seus passos, a sua voz! De repente escutei sua voz cantando no banheiro! Não era possível! A mesma música, a mesma voz! Ela não tinha morrido, estava apenas no banho! Cheguei à porta e comecei a escutar o doce som. A música parou depois de dois minutos e também a voz. A porta abriu e, o vapor do banheiro,trazia para mim o seu cheiro. Ah como eu fremia! A fumaça dissipou-se e estava pronto para agarrá-la em meus braços! Que sensação foi aquela? Medo? Susto? Somente fiquei paralisado! Toda a minha excitação sumiu junto com a fumaça! Era a minha filhinha! Era ela quem cantava a música e, sem entender nada, com a toalha envolta em seu corpo, cumprimentou-me com um beijo na bochecha e disse-me, rindo:
— Oi Pá! Não quis te assustar, vi o senhor dormindo e não quis te acordar!
Seu corpo molhado, seus cabelos... Ela realmente tinha crescido.
— Tudo Bem? Perguntou-me a garota.
Algo em minha fisionomia deve ter me denunciado. Tentei sorrir, mas o máximo que consegui, foi contrair os meus lábios grotescamente. Fingi um mal estar, tranquei-me em meu quarto, tomei dois calmantes e dormi.
Durante a primeira noite de sono, apesar dos calmantes, acabei acordando de madrugada. Fui ao banheiro, e ao voltar, percebi que a porta do quarto de Michele estava aberta. Decidi entrar no quarto para ver se a minha menina dormia bem. Desde o dia da morte de sua mãe, ela não deitava sem a luz acesa de seu abajur. Suas pernas estavam descobertas e era uma noite fria, sem acordá-la cheguei perto de sua cama, acariciei seu rosto e.ao cobrir suas pernas com o edredom que estava aos pés da cama, meus dedos resvalaram em sua macia pele. Senti um horrível frio na espinha e uma tremendo desespero. Sai de seu quarto e fui direto à cozinha. Abri uma lata de cerveja e a bebi rapidamente. Voltei ao meu quarto, mas a noite para mim já estava perdida. Por mais que eu me virasse e me mexesse, não conseguia descansar. Percebi que estava amanhecendo por causa da claridade que invadia meu quarto através das frestas da janela.
Exausto, tomei um banho gelado para acordar. Nesse dia nem acordei a minha filha para ir a escola, pois tinha medo de entrar em seu quarto . Enquanto esquentava meu café ela apareceu com o uniforme da escola. Já havia se trocado, porém estava atrasada para aula. Pediu-me que a levasse de carro, pois me culpava por não tê-la acordado e por isso ter perdido a hora. Um pouco contrariado, acabei cedendo e dando a carona. Lembro-me tão detalhadamente daquele dia! Na frente da escola beijei-a no rosto e lembro-me tanto daquele perfume... Depois de sair do carro, percebi que um garoto, usando o mesmo uniforme, segurou sua mão levou- a ao lábios e a beijou ternamente. Tentando disfarçar, minha filha olhou para mim, largou rapidamente a mão do rapaz, o qual parecia ser mais velho que ela, e entrou correndo para a escola. Percebi, porém que antes de entrar na instituição ela ainda deu um lindo sorriso para o rapaz, que correspondeu no mesmo instante.
Na minha frente! Não tinha respeito pelo pai?! A minha menina paquerando dentro da escola! Agarrei-me ao volante com tanta força, que minhas unhas cravaram na borracha! Os meus dentes rangiam e novamente o fantasma me assombrou. Vi Lúcia na frente do meu carro. Estava como no dia de nosso encontro, um vestido longo, os cabelos soltos, até o mesmo sapato salto-alto! Sorria para mim. Meus olhos encheram-se de lágrimas e gritei. De repente, de seus olhos começou a vazar sangue enquanto ela ria ensandecida em minha direção. Logo depois apareceu o mesmo garoto que havia pegado na mão de Michele. Ele aproximou-se da minha mulher a começou a beijá-la como um animal sedento. Os dois riam como loucos e apontavam seus dedos para mim. Fiquei tomado de um ódio tão profundo! Todavia, o sentimento foi substituído por um pavor incomensurável. Um frio inexplicável tomou conta de todo meu corpo. Sentia meu sangue correndo rapidamente para minha cabeça. Escutei um horrível zumbido. Tentei recobrar o autocontrole, porém conforme o medo desaparecia, uma terrível cólera surgia mais forte que a anterior. Mordi meus lábios até sangrarem. Tentava convencer-me de que tudo aquilo era mentira. Ela estava morta havia dois anos, não poderia ser real! Fechei meus olhos e com medo do que poderia ver ao abri-los, mantive-os assim por um bom tempo. Ao abri-los, a imagem já havia ido embora. E rindo de tamanha besteira, pensei:
“Isso é que dá! Não dorme à noite e fica sonhando acordado.”
Era um ciúmes sem sentido. “As garotas dessa idade sempre têm um paquerinha! Vê se entende e esquece a sua mulher! Ela já morreu, não é a sua filha!” Apesar de tentar me convencer com meus próprios argumentos, ainda assim me sentia inquieto. Liguei o carro, acelerei e fui ao trabalho para tentar me distrair. Passei a tarde inteira com a visão fantasmagórica de minha esposa e resolvi dar um fim nesse pesadelo.
Ao chegar em casa, fui direto ao meu quarto e abri o armário. Decidi pegar todas as roupas da falecida e jogá-las fora, pois estavam me consumindo. Precisava libertar-me das visões, portanto juntei-as todas em um saco de lixo e joguei-as para fora de casa. Pensei em jogar fora, também, suas fotos, mas seria doloroso de mais.
Cansado, preparei o jantar para Michele e fui dormir. Foi o melhor descanso, depois do desastre. Depois daquela noite, as coisas pareciam ter melhorado. Passaram três meses e as visões não vieram mais. Comecei a me acalmar, porém via a minha filha muito menos. Tudo parecia ir tão bem!
Como estava enganado! Decidi, um dia, pegá-la depois da aula, havia saído mais cedo do trabalho, portanto decidi fazer uma surpresa. Minha filha estava tão linda! Vi Michele correndo pelo portão. Que lindo sorriso! Foi uma das primeiras a sair, porém não tinha me visto ainda. Foi então que eu presenciei tamanha desgraça! Ela entrava em um carro totalmente desconhecido para mim. Entrava alegremente e com tamanha familiaridade, que tive vontade de sair do carro e espancá-la na frente de todos! Meu coração acelerava e comecei a chorar de ódio! Tal era o meu desespero, que as minhas mãos tremiam. Controlei, contudo, os meus sentimentos. Segui o automóvel, com medo do que eu poderia ver. Tive o cuidado de ficar sempre por volta de uns trezentos metros de distância do veículo. Assim que ele parou, decidi estacionar do lado oposto da rua em que estava o maldito carro. Michele estava agora na frente de uma bela casa branca, com um grande quintal, porém ainda estava dentro do automóvel. O que estaria ela fazendo lá dentro? E com que ela estaria? Decidi afastar de mim toda a suspeita maliciosa. Afinal de contas era a minha filha! A qual criei muito bem! No entanto, ao abrirem-se as portas, todas as minhas suspeitas confirmaram-se. Desceram do carro a minha filha e aquele moleque que a paquerava na frente da escola! Sem vergonha, já se encontrando a sós com rapazes! Aquele filho da puta querendo levar a minha filha para a casa dele! Era muito para mim! Há quanto tempo ela freqüentava aquela casa? No mínimo há dois meses. Como tinha coragem? Quis sair e trazê-la para o carro à força, porém a minha curiosidade era maior que a minha raiva e fiquei parado, escondido entre as árvores da calçada em que havia estacionado. A sua excitação era tanta, que Michele nem olhava para os lados, portanto eu nem me preocupava em ser descoberto. Como doeu ao ver a menina beijando a boca do rapaz, enquanto ele passava a mão em todo seu pequeno corpinho. O corpo que era meu! Ela era a minha filha! E ninguém tinha esse direito! Provavelmente ele a teria iludido. Uma garota tão nova... Elas são tão ingênuas! Apesar de toda a minha ira, não fiz nada além de observar. Foi uma questão de tempo até os dois entrarem na casa.
Entrei no carro e corri como louco até a minha residência. Não me preocupava com faróis, ou pedestres. Durante o percurso, atropelei um pequeno cão que atravessava a rua. Na verdade eu queria matá-lo! A minha raiva era imensa! Conforme eu me distanciava podia ouvir os ganidos do bicho! Não posso descrever a sensação que senti, ao compreender a gravidade do meu ato! Senti-me assustado, porém me sentia aliviado, como se eu tivesse passado toda a minha raiva para o animal. Deveria ter me jogado contra o primeiro poste! Não sofreria tanto! Teria evitado esse terrível sofrimento!
Depois disso, eu começo a não me lembrar muito bem dos fatos. Lembro de ter chegado em casa. E de ter dormido com Lúcia! Ela estava em casa quando eu cheguei. No quarto, ela me esperava. Estava toda nua abracei-a, beijei-a como nunca. Nem consegui dormir. A minha felicidade era imensa ela estava lá para me consolar. Acho que cochilei um pouco, olhei para o meu lado e ela não estava na cama. Procurei-a pela casa e encontrei-a no banheiro, usando seu belo vestido de noiva! Era a única peça que eu não havia jogado fora. Estava bela, dançando na frente do espelho. Um imenso ódio me invadia e eu não sabia o porquê. Era verdade! Ela havia me traído com um pivete, e eu vi! Entrou até na casa dele. E agora vestia-se de noiva, na minha frente. Não poderia agüentar tudo aquilo. Ela tinha que pagar pelo que fez! Me traiu! Pensava que eu não tinha visto!
Foi tudo muito rápido, lembro-me apenas de minha mão em volta de seu pescoço. E de algo fino e frio em minhas mãos. Ela tentava gritar, mas eu não escutava nada! Sentia-me exausto. Depois não me lembro de mais nada.
Acordei com uma tremenda dor de cabeça e, então, foi somente o horror! O mesmo que me persegue há dois dias! A minha filha está em meu quarto! O seu rostinho está preto. Ela está com o vestido de noiva de Lúcia! Não consigo mais suportar tamanho terror! E tendo expostos os fatos que nem eu mesmo entendo, tentei somente relatá-los.
Hoje conseguirei descansar! Comprei quatro caixas de raticidas, uma de cada marca diferente! Não consigo exprimir meu tamanho contentamento! Hoje conseguirei descansar e, em breve, encontrarei-me com minhas duas princesas!
— Oi Pá! Não quis te assustar, vi o senhor dormindo e não quis te acordar!
Seu corpo molhado, seus cabelos... Ela realmente tinha crescido.
— Tudo Bem? Perguntou-me a garota.
Algo em minha fisionomia deve ter me denunciado. Tentei sorrir, mas o máximo que consegui, foi contrair os meus lábios grotescamente. Fingi um mal estar, tranquei-me em meu quarto, tomei dois calmantes e dormi.
Durante a primeira noite de sono, apesar dos calmantes, acabei acordando de madrugada. Fui ao banheiro, e ao voltar, percebi que a porta do quarto de Michele estava aberta. Decidi entrar no quarto para ver se a minha menina dormia bem. Desde o dia da morte de sua mãe, ela não deitava sem a luz acesa de seu abajur. Suas pernas estavam descobertas e era uma noite fria, sem acordá-la cheguei perto de sua cama, acariciei seu rosto e.ao cobrir suas pernas com o edredom que estava aos pés da cama, meus dedos resvalaram em sua macia pele. Senti um horrível frio na espinha e uma tremendo desespero. Sai de seu quarto e fui direto à cozinha. Abri uma lata de cerveja e a bebi rapidamente. Voltei ao meu quarto, mas a noite para mim já estava perdida. Por mais que eu me virasse e me mexesse, não conseguia descansar. Percebi que estava amanhecendo por causa da claridade que invadia meu quarto através das frestas da janela.
Exausto, tomei um banho gelado para acordar. Nesse dia nem acordei a minha filha para ir a escola, pois tinha medo de entrar em seu quarto . Enquanto esquentava meu café ela apareceu com o uniforme da escola. Já havia se trocado, porém estava atrasada para aula. Pediu-me que a levasse de carro, pois me culpava por não tê-la acordado e por isso ter perdido a hora. Um pouco contrariado, acabei cedendo e dando a carona. Lembro-me tão detalhadamente daquele dia! Na frente da escola beijei-a no rosto e lembro-me tanto daquele perfume... Depois de sair do carro, percebi que um garoto, usando o mesmo uniforme, segurou sua mão levou- a ao lábios e a beijou ternamente. Tentando disfarçar, minha filha olhou para mim, largou rapidamente a mão do rapaz, o qual parecia ser mais velho que ela, e entrou correndo para a escola. Percebi, porém que antes de entrar na instituição ela ainda deu um lindo sorriso para o rapaz, que correspondeu no mesmo instante.
Na minha frente! Não tinha respeito pelo pai?! A minha menina paquerando dentro da escola! Agarrei-me ao volante com tanta força, que minhas unhas cravaram na borracha! Os meus dentes rangiam e novamente o fantasma me assombrou. Vi Lúcia na frente do meu carro. Estava como no dia de nosso encontro, um vestido longo, os cabelos soltos, até o mesmo sapato salto-alto! Sorria para mim. Meus olhos encheram-se de lágrimas e gritei. De repente, de seus olhos começou a vazar sangue enquanto ela ria ensandecida em minha direção. Logo depois apareceu o mesmo garoto que havia pegado na mão de Michele. Ele aproximou-se da minha mulher a começou a beijá-la como um animal sedento. Os dois riam como loucos e apontavam seus dedos para mim. Fiquei tomado de um ódio tão profundo! Todavia, o sentimento foi substituído por um pavor incomensurável. Um frio inexplicável tomou conta de todo meu corpo. Sentia meu sangue correndo rapidamente para minha cabeça. Escutei um horrível zumbido. Tentei recobrar o autocontrole, porém conforme o medo desaparecia, uma terrível cólera surgia mais forte que a anterior. Mordi meus lábios até sangrarem. Tentava convencer-me de que tudo aquilo era mentira. Ela estava morta havia dois anos, não poderia ser real! Fechei meus olhos e com medo do que poderia ver ao abri-los, mantive-os assim por um bom tempo. Ao abri-los, a imagem já havia ido embora. E rindo de tamanha besteira, pensei:
“Isso é que dá! Não dorme à noite e fica sonhando acordado.”
Era um ciúmes sem sentido. “As garotas dessa idade sempre têm um paquerinha! Vê se entende e esquece a sua mulher! Ela já morreu, não é a sua filha!” Apesar de tentar me convencer com meus próprios argumentos, ainda assim me sentia inquieto. Liguei o carro, acelerei e fui ao trabalho para tentar me distrair. Passei a tarde inteira com a visão fantasmagórica de minha esposa e resolvi dar um fim nesse pesadelo.
Ao chegar em casa, fui direto ao meu quarto e abri o armário. Decidi pegar todas as roupas da falecida e jogá-las fora, pois estavam me consumindo. Precisava libertar-me das visões, portanto juntei-as todas em um saco de lixo e joguei-as para fora de casa. Pensei em jogar fora, também, suas fotos, mas seria doloroso de mais.
Cansado, preparei o jantar para Michele e fui dormir. Foi o melhor descanso, depois do desastre. Depois daquela noite, as coisas pareciam ter melhorado. Passaram três meses e as visões não vieram mais. Comecei a me acalmar, porém via a minha filha muito menos. Tudo parecia ir tão bem!
Como estava enganado! Decidi, um dia, pegá-la depois da aula, havia saído mais cedo do trabalho, portanto decidi fazer uma surpresa. Minha filha estava tão linda! Vi Michele correndo pelo portão. Que lindo sorriso! Foi uma das primeiras a sair, porém não tinha me visto ainda. Foi então que eu presenciei tamanha desgraça! Ela entrava em um carro totalmente desconhecido para mim. Entrava alegremente e com tamanha familiaridade, que tive vontade de sair do carro e espancá-la na frente de todos! Meu coração acelerava e comecei a chorar de ódio! Tal era o meu desespero, que as minhas mãos tremiam. Controlei, contudo, os meus sentimentos. Segui o automóvel, com medo do que eu poderia ver. Tive o cuidado de ficar sempre por volta de uns trezentos metros de distância do veículo. Assim que ele parou, decidi estacionar do lado oposto da rua em que estava o maldito carro. Michele estava agora na frente de uma bela casa branca, com um grande quintal, porém ainda estava dentro do automóvel. O que estaria ela fazendo lá dentro? E com que ela estaria? Decidi afastar de mim toda a suspeita maliciosa. Afinal de contas era a minha filha! A qual criei muito bem! No entanto, ao abrirem-se as portas, todas as minhas suspeitas confirmaram-se. Desceram do carro a minha filha e aquele moleque que a paquerava na frente da escola! Sem vergonha, já se encontrando a sós com rapazes! Aquele filho da puta querendo levar a minha filha para a casa dele! Era muito para mim! Há quanto tempo ela freqüentava aquela casa? No mínimo há dois meses. Como tinha coragem? Quis sair e trazê-la para o carro à força, porém a minha curiosidade era maior que a minha raiva e fiquei parado, escondido entre as árvores da calçada em que havia estacionado. A sua excitação era tanta, que Michele nem olhava para os lados, portanto eu nem me preocupava em ser descoberto. Como doeu ao ver a menina beijando a boca do rapaz, enquanto ele passava a mão em todo seu pequeno corpinho. O corpo que era meu! Ela era a minha filha! E ninguém tinha esse direito! Provavelmente ele a teria iludido. Uma garota tão nova... Elas são tão ingênuas! Apesar de toda a minha ira, não fiz nada além de observar. Foi uma questão de tempo até os dois entrarem na casa.
Entrei no carro e corri como louco até a minha residência. Não me preocupava com faróis, ou pedestres. Durante o percurso, atropelei um pequeno cão que atravessava a rua. Na verdade eu queria matá-lo! A minha raiva era imensa! Conforme eu me distanciava podia ouvir os ganidos do bicho! Não posso descrever a sensação que senti, ao compreender a gravidade do meu ato! Senti-me assustado, porém me sentia aliviado, como se eu tivesse passado toda a minha raiva para o animal. Deveria ter me jogado contra o primeiro poste! Não sofreria tanto! Teria evitado esse terrível sofrimento!
Depois disso, eu começo a não me lembrar muito bem dos fatos. Lembro de ter chegado em casa. E de ter dormido com Lúcia! Ela estava em casa quando eu cheguei. No quarto, ela me esperava. Estava toda nua abracei-a, beijei-a como nunca. Nem consegui dormir. A minha felicidade era imensa ela estava lá para me consolar. Acho que cochilei um pouco, olhei para o meu lado e ela não estava na cama. Procurei-a pela casa e encontrei-a no banheiro, usando seu belo vestido de noiva! Era a única peça que eu não havia jogado fora. Estava bela, dançando na frente do espelho. Um imenso ódio me invadia e eu não sabia o porquê. Era verdade! Ela havia me traído com um pivete, e eu vi! Entrou até na casa dele. E agora vestia-se de noiva, na minha frente. Não poderia agüentar tudo aquilo. Ela tinha que pagar pelo que fez! Me traiu! Pensava que eu não tinha visto!
Foi tudo muito rápido, lembro-me apenas de minha mão em volta de seu pescoço. E de algo fino e frio em minhas mãos. Ela tentava gritar, mas eu não escutava nada! Sentia-me exausto. Depois não me lembro de mais nada.
Acordei com uma tremenda dor de cabeça e, então, foi somente o horror! O mesmo que me persegue há dois dias! A minha filha está em meu quarto! O seu rostinho está preto. Ela está com o vestido de noiva de Lúcia! Não consigo mais suportar tamanho terror! E tendo expostos os fatos que nem eu mesmo entendo, tentei somente relatá-los.
Hoje conseguirei descansar! Comprei quatro caixas de raticidas, uma de cada marca diferente! Não consigo exprimir meu tamanho contentamento! Hoje conseguirei descansar e, em breve, encontrarei-me com minhas duas princesas!
